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DJ Kingdom: a potência do funk e da música eletrônica periférica de BH | Retrato Falado

De Contagem para o mundo, DJ Kingdom transforma sua trajetória na música em um movimento que conecta funk, música eletrônica, periferia e identidade mineira.

Há dez anos, DJ Kingdom escolheu transformar em profissão aquilo que já fazia parte dos seus sonhos de infância: trabalhar com música. Natural de Contagem, na Região Metropolitana de Belo Horizonte, a artista encontrou na discotecagem uma forma de contar sua própria história — e, ao mesmo tempo, representar uma cena que vem ganhando cada vez mais espaço dentro e fora do Brasil.

“Meu sonho de criança era trabalhar com música”, relembra.

Em 2026, ao completar uma década de carreira, Kingdom olha para trás e reconhece que está vivendo aquilo que imaginava quando ainda era criança. Entre os momentos mais marcantes dessa trajetória está o convite para tocar na Europa. Mais do que uma viagem internacional, a experiência representou a confirmação de que a música produzida a partir de sua realidade também poderia atravessar fronteiras.

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“Eu poder contar a minha história através da arte que eu desempenho, que é tocar, que é discotecar.”

Para a DJ, existe algo ainda mais poderoso nessa troca: perceber que pessoas de outros lugares conhecem seu trabalho, acompanham seus sets e querem dividir uma pista com ela.

“Essa troca, ela não tem preço.”

Música eletrônica de favela

Ao longo da conversa, Kingdom também questiona as fronteiras que ainda existem entre o funk e a música eletrônica. Para ela, o funk produzido nas periferias brasileiras deve ser reconhecido também como uma forma de música eletrônica, justamente por utilizar elementos e linguagens que dialogam diretamente com gêneros como house.

Mas existe uma particularidade fundamental: cada território transforma essas referências a partir da própria vivência.

O funk de São Paulo tem sua construção. O Rio de Janeiro desenvolveu outra perspectiva. E Belo Horizonte criou uma sonoridade própria.

“Se você ouvir um funk de São Paulo, se você ouvir um funk do Rio de Janeiro, se você ouvir um funk de Belo Horizonte, eles não têm a mesma sonoridade, mas a gente está ali dentro, contando a mesma história.”

É nessa diversidade que Kingdom enxerga a força da cena brasileira.

BH como potência cultural

Para a artista, Belo Horizonte vive um momento especial. A cidade, que historicamente construiu uma identidade musical própria, apresenta uma nova geração de artistas, produtores e coletivos que estão levando a cultura periférica mineira para outros territórios.

Entre esses movimentos está o Baile Rum, projeto criado por Kingdom e seus parceiros como uma espécie de paródia brasileira da Boiler Room. A ideia inicial era simples: criar um espaço onde os artistas pudessem tocar aquilo em que realmente acreditavam — a música eletrônica de periferia.

O projeto acabou crescendo e alcançando reconhecimento internacional.

Kingdom também destaca nomes da cena mineira, como VHOOR, que, em sua visão, representa uma das grandes forças na construção dessa nova linguagem da música eletrônica periférica.

Para ela, o momento é de afirmação.

“Culturalmente, a gente vai exportar cultura.”

Mais do que buscar referências fora, Kingdom acredita que Belo Horizonte já possui todos os elementos necessários para produzir e exportar sua própria identidade.

“A gente tem tudo aqui. A gente não precisa sair daqui para poder buscar inspirações fora.”

Viver da música — e abrir caminho para outras

Por trás da potência artística existe também uma preocupação muito concreta: estabilidade.

Mãe de duas filhas, DJ Kingdom não quer apenas continuar trabalhando com música. Ela quer construir uma carreira capaz de proporcionar uma vida mais tranquila para sua família, longe da vulnerabilidade financeira que ainda acompanha muitos profissionais da indústria musical.

“Eu quero viver. Viver sem essa correria que é a gente ser vulnerável financeiramente.”

A artista também projeta seu futuro para além da própria carreira. Uma de suas maiores ambições é poder ajudar outras mulheres pretas a encontrarem caminhos dentro do mercado.

A ideia é transformar a própria trajetória em prova de que é possível chegar lá.

“Cheguei até aqui, é possível. É possível, vem, faça também, acredita.”

No Retrato Falado, DJ Kingdom apresenta uma trajetória que vai muito além das pistas. É uma história sobre identidade, território, representatividade e sobre uma cena que deixou de apenas consumir referências para começar a produzir e exportar sua própria cultura.

De Contagem para o mundo, a DJ encontrou na música uma forma de contar sua história. E, ao fazer isso, ajuda a contar também a história de uma Belo Horizonte que dança, cria e cada vez mais ocupa seu espaço no mapa da música eletrônica mundial.

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