“Se eu posso viver disso, eu tenho que devolver pra rua.”

Quando criança, Raquel Bolinho queria ser cabeleireira — ou professora, ou advogada. Acabou sendo todas, de algum jeito. Formada em Letras, professora de português e inglês, encontrou nas palavras o mesmo encantamento que mais tarde descobriria nas cores.
Foi em Belo Horizonte que tudo mudou. Chegando de Itabira para estudar, começou a frequentar o Duelo de MCs, onde o grafite coloria as sextas-feiras sob o Viaduto Santa Tereza. “Eu via aquela galera pintando e pensava: quero que as pessoas sintam por mim o mesmo que eu sinto vendo isso aqui”, lembra.

Em 2009, arriscou o primeiro traço. Queria desenhar um cupcake, mas achou o nome complicado e o desenho difícil demais. Simplificou, arredondou, colocou um rostinho. Nascia o Bolinho — um personagem que, sem querer, se tornaria um dos símbolos mais queridos da arte urbana de BH.
O começo foi tropeço e tinta escorrendo. “Eu pensei: isso não é pra mim.” Mas insistiu. Entre aulas, estudos e viradas de madrugada, foi enchendo a cidade de bolinhos coloridos. “Pintava entre um turno e outro da faculdade. Era o tempo que eu tinha.”

Durante muito tempo, viver de grafite parecia impossível. “Quando um evento te dava uma lata de spray, aquilo já era o auge”, conta. Trabalhou em museus, deu aula, estudou artes visuais — até que, por volta de 2015, percebeu que o grafite já era seu ofício.
Hoje, o Bolinho é uma marca registrada e um símbolo de afeto. Está nas ruas, nas escolas, nas camisetas, nos muros da rodoviária — a primeira imagem que muitos veem ao chegar a BH. “Eu não me preocupava se as pessoas gostavam ou não. Eu queria que elas vissem. Que entendessem que aqui é a cidade do bolinho.”
Raquel continua preferindo o título de grafiteira a “artista”. Mantém o mesmo compromisso que a levou pra rua: “Se hoje eu posso viver disso, o mínimo que posso fazer é devolver pra rua. Porque nem todo mundo pode comprar uma tela, mas todo mundo pode ver um bolinho no caminho.”
Entre memes, tendências e tintas novas, o personagem segue se reinventando — e Raquel também.
“O Bolinho muda comigo. É o jeito que eu continuo conversando com a cidade.”


















Was struggling to find the official download link but this site made it so easy. The app is lightweight and runs perfectly on my old phone. Visit ok777betappdownload to get started.