Não é preciso ser apaixonado por moda para saber: o Met Gala é um dos eventos — se não o mais — em que o look dos convidados se torna protagonista, onde todos prestam atenção em quem seguiu o tema ou quem apenas quis entregar um “look bonito”. Realizado no Metropolitan Museum of Art, com o objetivo de arrecadar fundos para o Costume Institute enquanto celebra cultura e moda, o evento anunciou o tema da edição de 2026, que guia tanto a exposição associada quanto o dress code dos convidados.

Para 2026 o tema é “Costume Art”, uma celebração do corpo e de seu protagonismo em relação à moda e às roupas que o vestem ao longo do tempo. O curador Andrew Bolton explica que o recorte se apoiou em três grupos: os corpos onipresentes na arte (como o clássico e o nu), os corpos frequentemente negligenciados (como envelhecidos e gestantes) e os corpos universais (como o anatômico). A proposta é oferecer uma visão mais abrangente e inclusiva, afastando-se dos padrões estéticos tradicionalmente reforçados pela indústria da moda.
Mas, apesar da roupagem conceitual, o tema surge num momento sensível. Enquanto o mundo revive a febre Y2K, também vemos retornar a cultura da magreza extrema. Mesmo marcas que tentaram se adaptar à diversidade, como a Victoria’s Secret, voltaram a ser cobradas por parte do público jovem, que pede a “volta das angels magérrimas”. Isso escancara algo que quem estuda ou trabalha na moda já sabe: por mais que haja discursos de mudança, na prática, o padrão ainda é rígido e pouco representativo.

Para quem observa a indústria de moda de perto, é claro: ainda que haja discursos de mudança, as grandes marcas que “ditam a moda” normalmente continuam privilegiando modelos magros, altos, alinhados ao padrão dominante. E é interessante perceber que, justamente agora que a cultura da imagem retornou com vigor, o corpo volte ao centro, quando, na verdade, ele nunca saiu. Porque, embora as tendências se alternem, ora exaltando o corpo sarado, ora a barriga negativa, ora os recortes e a silhueta curvilínea, o corpo gordo, o corpo mais velho, o corpo curvilíneo fora da medida padrão, raramente são vistos com a mesma legitimidade. Eles não aparecem como referência ou como inspiração, independentemente do movimento da vez.
E talvez esse seja justamente o ponto de tensão do “Costume Art”: é um tema amplo demais, e, pela primeira vez, sem nem um subtítulo para guiar a leitura, o que pode resultar em interpretações equivocadas e problematicas, ou abrir espaço para a criatividade e pensamento lúdico de quem for elaborar os looks. Enquanto isso, estarei aguardando ansiosamente pela edição do ano que vem!





