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“A SUA LIBERDADE ME TORNOU UMA MULHER LIVRE”: NATÁLIA RODRIGUES NO RETRATO FALADO

Na edição de outubro, o Retrato Falado encontra Natália Rodrigues para falar sobre infância, criação, medo, amadurecimento e a criança que continua habitando a mulher aos 45 anos.

Ainda Mora Aqui.

A edição de outubro do Retrato Falado parte de uma ideia simples: crescer não significa necessariamente deixar para trás quem fomos.

Para Natália Rodrigues, essa criança não apenas permaneceu. Ela continua presente na maneira como a atriz cria, sonha, enfrenta o medo e escolhe ocupar o mundo.

“A criança que habita em mim, eu não deixo ela morrer nunca.”

A CRIANÇA QUE CRIAVA

Natália nasceu em São Paulo e cresceu no Jardim Jaqueline, periferia próxima ao Butantã. Guarda daquele período as brincadeiras na rua, a convivência entre vizinhos e uma infância que descreve como simples e muito bonita.

Desde pequena, porém, havia uma característica que atravessaria sua vida: criar.

Inventava brincadeiras e personagens, usava os sapatos da mãe e carregava uma personalidade que ela própria define como forte. Foi ainda criança que um encontro com um scouter abriu as primeiras portas para trabalhos publicitários. Mais tarde vieram a moda, o teatro e a atuação.

“Eu não consigo me ver fazendo outra coisa na vida, a não ser criar.”

O MEDO É ALGO DO ADULTO

Aos 45 anos, Natália fala sobre a infância não apenas como memória, mas como uma força que decidiu preservar.

Para ela, a criança continua sendo o lugar da liberdade, da curiosidade e, principalmente, da ausência de medo.

“A minha criança é uma das coisas mais potentes que eu tenho dentro de mim.”

Ao longo da vida adulta vieram experiências, dificuldades e os bloqueios naturais de quem passa a compreender melhor os riscos do mundo. Mas Natália escolheu não entregar esses medos àquela versão de si mesma.

“O medo é algo do adulto.”

É dessa relação que nasce uma das ideias centrais da conversa: coragem não significa necessariamente deixar de sentir medo. Significa impedir que ele determine o próximo movimento.

“Quando você entende que o medo não pode te paralisar e que você tem que ir, aí você vai.”

CRIAR PARA TRANSFORMAR

A mesma criança que inventava personagens encontrou na atuação uma maneira de continuar brincando — agora transformando essa imaginação em linguagem.

Natália passou pela televisão, cinema e teatro, mas é no palco que descreve encontrar uma relação especialmente profunda com o ofício.

Para ela, o teatro é um espaço sagrado. Um lugar em que corpo, voz, público e personagem existem simultaneamente e em que nenhuma apresentação é exatamente igual à anterior.

Aos olhos da atriz, a arte só encontra sentido completo quando consegue provocar algum movimento em quem está do outro lado.

“Se eu posso tocar uma pessoa […] e essa única pessoa sair dali mexida, está feito para mim.”

AINDA MORA AQUI

Talvez crescer seja aprender a carregar diferentes versões de nós mesmos.

A criança que brincava nas ruas do Jardim Jaqueline não desapareceu quando Natália saiu de casa ainda adolescente, começou a viajar pelo mundo como modelo ou construiu sua trajetória como atriz.

Ela ainda sobe em árvores. Ainda cria personagens. Ainda sonha. E, principalmente, continua lembrando à mulher adulta que nem tudo precisa começar pelo medo.

No fim do Retrato Falado, Natália é convidada a olhar novamente para essa menina.

A resposta acaba resumindo toda a edição:

“Eu olharia para ela e falaria: deu tudo certo. A sua liberdade me tornou uma mulher livre. A sua falta de medo me fez não ter medo na vida.”

E então completa:

“Eu espero que eu tenha honrado seus sonhos.”

No mês das crianças, o Retrato Falado — Ainda Mora Aqui não olha para a infância apenas como aquilo que passou.

Olha para aquilo que permaneceu.

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