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Retrato Falado — Pablo Bispo

“Transformar Dor em Arte é Meu Jeito de Viver”

Pablo Bispo nunca planejou ser artista. Cria de Bangu, na zona oeste do Rio de Janeiro, ele cresceu em um cenário onde a arte estava nas ruas, mas os artistas não se reconheciam como tal. “Eu venho de um lugar em que a gente é desacreditado. Onde você precisa se diminuir para caber”, diz.

Foto: Diego Ruahn

A primeira paixão foi simples: um radinho toca-fitas e cinco opções de estação. Ele ouvia de tudo — do pagode do Molejo ao funk de Claudinho & Buchecha, passando pelo jazz que embalava suas noites. Sem perceber, a música já o transportava para outro universo. “Eu estava em carne, mas minha imaginação estava em outro lugar. A música me levava para um mundo de fantasia.”

Por muito tempo, essa conexão ficou guardada. Até os 27 anos, Pablo seguiu um caminho “seguro”, tornando-se gerente de banco. Mas tudo mudou quando sua mãe iniciou um tratamento contra o câncer. Ele largou tudo para trabalhar como palhaço em hospitais. “Eu queria entender a dor e transformá-la em sorriso. Era um jeito de lidar com a minha e com a dos outros.”

Foi nesse período que um poema escrito para a mãe abriu a porta para a música. Por acaso — ou destino — ele chegou até Anitta. “Ela poderia escolher qualquer compositor, mas escolheu a gente. Isso mudou tudo.” A parceria rendeu as primeiras músicas gravadas por Anitta no álbum Bang e, dali em diante, Pablo nunca mais parou.

Hoje, ele é um dos compositores mais influentes da música pop brasileira, com hits que atravessaram fronteiras, vozes e causas. Mas, para ele, o papel vai além do sucesso: é sobre transformar dor em amor e usar a música como artivismo — uma mistura de arte e ativismo.

De Anitta a Pabllo Vittar, de Gloria Groove a Ludmilla, suas composições ajudaram a impulsionar vozes que representam diversidade. O ápice desse impacto foi ver uma drag queen dominar os três primeiros lugares do Brasil com “Sua Cara”, “K.O.” e “Corpo Sensual”. “Foi um estalo de felicidade e medo. Num país que mais mata LGBTQIA+, aquilo era histórico. A gente precisava provar que não era sorte.”

Entre conquistas e perdas — como a partida da mãe e de amigos próximos —, Pablo segue criando, com a certeza de que sua arte carrega muito mais que refrões chicletes: carrega histórias, dores, lutas e esperança. “A vida é bonita, mesmo sendo dolorosa. E a música é minha forma de transformar tudo isso em luz.”

“Eu não faço música sozinho. Minha arte é a minha comunidade.” — Pablo Bispo

Produção: Trace Studio

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