DESTAQUERetrato Falado

Retrato Falado — Gustavo Ziller

“Tempo não é dinheiro. É vida.”

Gustavo Ziller tem 51 anos e um olhar sereno de quem já viveu muitas montanhas — algumas de pedra, outras de alma. Belo-horizontino, ele lembra com nitidez o menino que descia a Rua Viçosa de carrinho de rolimã, desembestado, antes de subir tudo de novo, arrastando o brinquedo na força do riso e do vento.

foto: Diego Ruahn

A infância foi um vaivém de lugares e descobertas: Salvador, Belém, o mar, o calor, as bicicletas sem cadeado deixadas na entrada do Museu Emílio Goeldi. “O movimento sempre fez parte da minha vida”, diz. Talvez por isso, ele nunca tenha parado quieto — nem quando o corpo pediu pausa.

Publicitário de formação, músico de coração, escritor por vocação e montanhista por destino improvável, Ziller é daqueles que parecem viver em ciclos. Passou pela Inglaterra, morou em São Paulo, empreendeu, escalou o Everest, escreveu livros, fundou o Instituto Serra do Curral e, entre uma trilha e outra, descobriu que desacelerar também é movimento.

Em 2012, o corpo cobrou o preço do ritmo. Um desmaio ao volante, o diagnóstico de burnout, e a vida exigiu um novo rumo. “Não foi o trabalho que me adoeceu. Foi o jeito como eu me relacionava com ele.” Desde então, Ziller substituiu a pressa por presença. “O tempo não é dinheiro. É vida. E eu não vou mais colocar matemática na minha existência.”

De volta a Belo Horizonte, reencontrou seu eixo entre o asfalto e a montanha. Escreve, pedala longas distâncias, toca com a banda, vê as netas crescerem. “Hoje, com 50, eu sou mais jovem do que quando tinha 36”, ri. “Não é só física — é cabeça, é alma.”

Ziller fala da cidade como quem fala de um amor maduro. “A Serra do Curral é o símbolo da nossa identidade. A gente precisa ter um olhar poético e amoroso para o lugar onde vive. Senão, a vida vira um inferno.”

O menino do carrinho de rolimã virou o homem que aprendeu a descer a vida com menos medo da curva — e a subir, de novo, arrastando o carrinho, se for preciso.

“Não sou superatleta, nem coach meritocrático. Sou só um cara comum tentando viver bonito.” — Gustavo Ziller

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