por MANDS
Entre semanas de moda, lançamentos, textos no Substack e um feed saturado de publis e “trend reports”, uma pergunta voltou a rondar meus pensamentos: a moda ainda pode existir com propósito? Ou já nos habituamos tanto à lógica do capital que toda criação precisa, necessariamente, nascer com um objetivo comercial?

Essa inquietação me acompanha desde que comecei a trabalhar com styling. Existe pesquisa, estudo, construção de imagem, horas de execução e dedicação — mas o mercado insiste em tratar esse trabalho como acessório. Não é sobre lamentar; é sobre constatar um cenário em que a arte é frequentemente colocada em segundo plano, enquanto o lucro dita o ritmo.
Essa percepção reapareceu ao assistir a alguns desfiles do SPFW. Um espaço historicamente dedicado à experimentação estética e ao pensamento criativo, às vezes, parece assumir o papel de vitrine para ativações publicitárias. Houve momentos em que o propósito da passarela parecia menos interessado em moda — e mais em atender estratégias de marcas que pouco dialogam com o setor.
Como se o desfile fosse apenas mais um canal de campanha, e não uma plataforma de expressão.
A partir daí, outra questão emergiu: quando transformamos pessoas em produtos? Influenciadores moldados por equipes — muitas vezes não creditadas — passam a ocupar lugares de autoridade sobre moda e comportamento, mesmo sem repertório para sustentar tais narrativas.
Talvez sempre tenha existido alguma versão disso, mas a internet acelerou o processo e elevou a performatividade do “ser marca” acima do “ter algo a dizer”.
Talvez por isso o novo clipe da ROSALÍA, Berghain, tenha chamado minha atenção. Ela escolhe um caminho que não busca agradar o maior número de pessoas: um experimentalismo sonoro pouco popular entre jovens, aliado a um videoclipe construído com conceito, moda e referências.
Falei sobre isso recentemente em um vídeo meu, porque considero significativo quando alguém com alcance opta por criar obra, e não apenas conteúdo.
As ferramentas para criar continuam aí, abundantes até. Mas hoje, parecem direcionadas mais à produção de “entregáveis” do que à construção de pensamento estético. A moda vira estratégia. A imagem vira produto.
E a arte, quando aparece, surge nas brechas — quando alguém escolhe resistir ao imediatismo e usar a criação como linguagem, não como KPI.
Ainda assim, continuo acreditando na moda como expressão, narrativa e cultura — e não apenas como produto.
Porque a obra, diferente do algoritmo, não precisa de aprovação para existir.





