Meu pai é eletricista automotivo e aprendeu a fazer tricô com as tias dele, em Oliveira, Minas Gerais. Quando eu tinha 11 anos, ele chegou com uma lã azul (como bom cruzeirense) e me entregou duas agulhas feitas com vergalhão de ferro (como bom gambiarreiro). Nada usual, mas como somos feitos do acaso e das oportunidades, foi assim que ele me ensinou a fazer tricô e, pouco tempo depois, aprendi a fazer crochê.

Me encantei com a possibilidade de fazer as minhas próprias roupas e era um máximo explicar para os meus amigos qual era a diferença entre crochê e tricô (crochê é uma agulha só, tricô são duas, sabe?). Mas o que eu descobri mais de uma década depois é que, além do número de agulhas, existe outra diferença entre as duas técnicas: o tricô pode ser feito por máquina, mas o crochê só existe feito à mão.
POIS É, O “CROCHÊ INDUSTRIAL” NÃO EXISTE
Muitas peças são vendidas nominalmente como crochê apesar de não serem. Pode parecer uma informação banal, mas, considerando a visibilidade atual do crochê, é melhor que saibamos identificar fichas técnicas mentirosas e, principalmente, refletir: qual é o problema de falar que é tricô?
Como é possível presumir, não tem nada de errado com o tricô, que fique pontuado. A questão é que, desde 2020, segundo o Google Trends, as pesquisas sobre o termo “crochê” deram um salto, sinalizando um comportamento importante entre a juventude atual. Em uma pesquisa na Central de Criativos do TikTok, os dados da plataforma são reveladores: nos últimos 7, 30 e 120 dias, no setor de Vestuário e Acessórios, “crochê” e “crochet” figuram entre as 3 hashtags mais usadas, totalizando mais de 140 mil postagens nos últimos 120 dias.

NÃO É SÓ PELO “FAÇA VOCÊ MESMO”
Quem estava na internet em 2016 deve se lembrar da sigla “DIY” (Do It Yourself/faça você mesmo), que se popularizou principalmente no YouTube com tutoriais de reparos, modificações e criações de modo geral. Dez anos se passaram e, se antes as pessoas faziam com as próprias mãos para não gastar dinheiro, em 2026 o fazer manual chega como resposta ao cansaço, especialmente da geração Z, que não aguenta mais só rolar timeline e busca alguma imersão e presença.
Existem evidências consistentes de que há uma tendência global de retorno ao analógico, e devemos colocar isso em perspectiva, não para “denunciar uma modinha”, mas sim para buscar entender como essas complexidades nos afetam. Na sociedade capitalista, as classes dominantes historicamente buscam se diferenciar daquilo que associam à pobreza. Com todas as reduções, é possível dizer que diferente de ser pobre é ter tempo, e o retorno ao analógico e ao fazer manual se relaciona com isso também.
NOS INTERESSA A VALORIZAÇÃO DO CROCHÊ, MAS DEVERIA NOS PREOCUPAR A DESVALORIZAÇÃO DE QUEM FAZ
Raça, gênero e classe não se dissociam e estão presentes nessa discussão, afinal, o crochê (assim como o tricô, a costura e o bordado) é fonte de renda para muitas mulheres e suas famílias. O Escritório das Nações Unidas de Serviços para Projetos (UNOPS) realizou em 2022 um estudo sobre gênero e condições de trabalho na Indústria da Moda que levantou importantes dados estatísticos e analíticos.
Apesar do estudo se tratar das trabalhadoras da costura e não do crochê, sabemos que é comum bordadeiras que são crocheteiras e também costureiras. Os dados levantados mostram como a moda é feita por mãos femininas precarizadas, se tornando um espaço em que as opressões interseccionais de gênero, raça, classe e território são feridas abertas nas roupas que usamos.
Marcas expressivas como Garage Rio e Farm Rio, ou ainda a italiana SAINTS STUDIO (exemplo de tricô industrial), apostam na venda do crochê e é justo que essas peças não sejam baratas se o lucro for justamente repassado a quem deu vida à peça. Afinal, além do processo criativo ou da pesquisa por receitas, tecer uma peça é construir, microscopicamente, um pano que não existe, o que leva muito tempo, cansa os olhos e pode causar tendinite.
As pressões mercadológicas e as grandes marcas chegaram às crocheteiras e ainda não sabemos como se dão essas relações de trabalho, mas, como o estudo citado acima já mapeou, temos razões para fazer perguntas. Se a vontade de ter uma peça exclusiva não contempla a remuneração justa de quem fez a peça, temos aí um sintoma mórbido típico do neoliberalismo e seus micróbios na nossa cabeça — e, como diria Beto Guedes, vamos precisar de todo mundo.
Esbarrou com uma peça barata anunciada como “crochê” e quem está vendendo não é quem crochetou? De modo geral, é possível assumir que, se ainda não inventaram uma máquina que faça crochê, apenas alguns protótipos iniciais, de duas, uma: ou essa peça baratinha não é de crochê, ou a pessoa — possivelmente uma mulher precarizada — gastou horas ou dias fazendo uma peça pela qual recebeu uma remuneração injusta.
LUXO É TER TEMPO
Nada que viraliza na internet escapa da compressão necessária para caber na rapidez dos bits. Foi assim com os clubes de leitura, popularizados para depois serem atravessados por vídeos de “vem comigo ver os cinco livros que eu li em 24 horas”. Agora, o luxo que é poder se doar a processos manuais também viraliza: chega a mais pessoas, produz impactos positivos de incentivo e interesse, mas carrega junto reflexões inevitáveis sobre como lidamos com o tempo das coisas.
Lembro quando uma amiga crocheteira me mostrou uma influenciadora que fez peças de crochê em intervalos curtíssimos: peças lindas, bem executadas, produzidas entre cafés superfaturados, séries e piscinas. Realmente o crochê é viciante e todo mundo pode embarcar neste balão com a sua verdade, mas ele só responde a essa demanda de interesse sendo ele mesmo: feito à mão e exigindo tempo. E é justamente aí que reside o seu luxo, a sua diferença, pois tempo hoje é item raro.
PROVOCAÇÕES SOBRE NOSSO PODER IMAGINATIVO
Convém pensar na importância de dar lugar ao mistério que envolve o ficar offline e o fazer manual. Abrilhante é designer de moda e faz do crochê uma expressão autêntica de sua identidade e de raízes do norte do Brasil. No início de 2026, ela postou em seu Instagram uma reflexão: “aparentemente, agora o crochê virou uma atividade performática (…) não estou querendo polemizar, vocês que me dizem”.
A provocação de Abrilhante versa sobre os movimentos ansiosos que vemos acontecer nas redes sociais, uma discussão complexa. A psicanalista Maria Homem fala sobre estarmos com o nosso imaginário sequestrado pela velocidade e pela irreflexão dos tempos atuais e acho difícil não pensar no crochê quando escuto ela.
O crochê é feito de cálculos matemáticos complexos que traduzimos com nossas mãos, mas também pode ser imaginação correndo livre, sem ser enquadrada nas trends. Existem muitas formas de fazer crochê: existem artistas têxteis incríveis como Abrilhante e várias outras pessoas, especialmente mulheres, que têm o crochê como principal fonte de renda, como hobby e como paixão subjetiva a pouco tempo ou há muitos anos. Trajetórias assim não cabem em métricas viralizadas e que bom.
por: Natália Carvalho





