Da roça ao trio elétrico: a batida que ajudou a reinventar o Carnaval de Belo Horizonte

Christiano de Souza Oliveira, o Di Souza, nasceu em 6 de outubro de 1989, em Piedade de Ponte Nova, interior de Minas Gerais. Sua primeira memória afetiva do Carnaval vem da infância, aos seis anos, quando observava encantado um pequeno bloco de percussão desfilar pelas ruas da cidade. Mesmo sem idade para participar, o ritmo já o atravessava. Ali, balançando um ganzá pela primeira vez, algo começou.
foto: Marcela Arrais
A infância foi marcada por uma intensa vivência cultural mediada pela igreja, onde Di Souza participou de blocos, teatro, coral e atividades festivas. Como muitas crianças dos anos 1990, sonhava ser jogador de futebol. Torcedor do Cruzeiro, ele se muda para Belo Horizonte no início dos anos 2000 com esse sonho, após a perda precoce da mãe. A mudança representava mais do que um novo endereço: era uma tentativa de reconstrução de vida.

Na capital, cresce na Vila do Acaba Mundo, território periférico cercado por bairros ricos, mas reconhecido hoje como um dos principais polos percussivos da cidade. O futebol logo ficou para trás, não por falta de amor, mas por perceber que sua potência estava em outro lugar. Na arte, Di Souza era visto, acolhido e aplaudido.
A virada definitiva acontece com sua entrada no Projeto Querubins e, posteriormente, no Corpo Cidadão, do Grupo Corpo. Ali, constrói uma formação artística ampla e integrada: percussão, dança afro, dança contemporânea, balé clássico, capoeira, musicalização e educação cultural. Mais do que técnica, esses projetos ampliaram seus horizontes humanos e sociais.

No fim dos anos 2000, Di Souza se torna figura ativa da cena musical independente de Belo Horizonte, gravando e circulando com artistas e bandas que marcaram uma geração. Esse trânsito, somado à sua formação nos projetos sociais, o leva naturalmente ao Carnaval de Rua que começava a se reorganizar na cidade a partir de 2012.
Ele participa da fundação e da construção de baterias de blocos que hoje são fundamentais para o Carnaval belo-horizontino, como Então Brilha, Baianas ozadas, Pena de pavão de krishna
, Pisa na Fulô, Abre-te Sésamo e Circuladô, além de atuar em carnavais de outras cidades mineiras.
Em 2014, diante do crescimento acelerado das baterias, Di Souza protagoniza um marco histórico: sobe pela primeira vez em um trio elétrico para reger uma bateria de bloco. O gesto inaugura um modelo inédito — o maestro conduzindo o cortejo do alto do trio — que se tornaria uma das principais singularidades do Carnaval de Belo Horizonte e seria adotado por diversos blocos nos anos seguintes.

Hoje, com mais de 600 blocos ativos, o Carnaval devolveu à cidade uma autoestima coletiva e uma nova relação com o espaço público. Para Di Souza, no entanto, o desafio permanece: preservar o caráter coletivo, poético e popular da festa diante das tentativas de institucionalização excessiva. O Carnaval, para ele, é uma “tecnologia do delírio” — um tempo em que a cidade se reinventa, suspende regras e se reconhece como corpo coletivo.
Da roça ao trio elétrico, Di Souza ajudou a transformar batida em linguagem e festa em território de pertencimento.
Fotos: Marcela Arrais & Diego Ruahn















