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RETRATO FALADO — O CURA E A CIDADE: JANA MACRUZ E PRI AMONI

O Retrato Falado desta edição mergulha na história de um dos movimentos culturais mais transformadores do Brasil contemporâneo: o CURA  Circuito Urbano de Arte. Conversamos com Jana Macruz, 42 anos, e Pri Amoni, 40, duas das fundadoras desse projeto que mudou a paisagem  e a autoestima  de Belo Horizonte.

 

A semente do movimento

O CURA nasce de um momento efervescente vivido na capital mineira. Entre 2010 e 2013, a cidade pulsava com ocupações criativas, movimentos sociais, debates públicos e uma forte presença da cultura de rua. Foi nesse contexto que Jana e Pri impulsionadas por um desejo de pintar prédios inteiros decidiram transformar essa energia em festival.

Morando juntas na época, envolvidas no grafite, na rua, nas trocas com artistas de todo o Brasil, elas criaram um ambiente fértil de experimentação. “Tínhamos pura vontade de fazer acontecer”, lembra Pri. A casa que dividiam era também espaço de criação: Jana, Pri, o fotógrafo Brunão e Ane, especialista em trabalho em altura, viviam imersos em arte urbana.

A primeira edição: um salto no escuro

Em 2015, nasce o CURA. com poucos recursos, mas com uma rede de apoiadores que acreditou no projeto. A primeira edição transformou o Mirante da Sapucaí no Mirante de Arte Urbana, conectando diferentes coletivos e trazendo para o centro debates sobre cidade, mobilidade, política e cultura negra.

Nenhum artista recebeu cachê. Vários profissionais trabalharam por parceria. E mesmo assim, o festival ganhou proporção gigante: ocupou uma lacuna histórica de Belo Horizonte e mostrou, pela primeira vez, o impacto das empenas em grande escala na paisagem urbana da capital.

Pouco depois, uma marca procurou o grupo para presentear BH com duas empenas no aniversário da cidade. O CURA tinha nascido grande e essencial.

O festival que virou movimento

Ao longo dos anos, o CURA se aprofundou conceitualmente e territorialmente. Do hipercentro, o projeto seguiu para a Lagoinha, onde investigou hortas urbanas, terreiros e histórias do primeiro bairro da cidade.

Depois, chegou à Praça Raul Soares, estudando o território, a arquitetura, o movimento LGBTQIA+ e construindo uma verdadeira mística urbana  com direito a rituais de abertura e curadoras convidadas.

Em 2020, o CURA deixa de ser apenas um festival de arte urbana e se afirma como festival de arte pública, expandindo sua presença para instalações, intervenções e experiências sensoriais.

E finalmente, atravessa o país: CURA Amazônia, com empenas pintadas por artistas indígenas de etnias brasileiras e internacionais, criando um “portal” entre Belo Horizonte e Manaus.

Hoje, o CURA não se define mais como festival é um movimento de arte pública em expansão.

Belo Horizonte, território fértil

A força do CURA também nasce da cidade. BH sempre foi terreno coletivo, onde artistas, produtores e movimentos se apoiam. Mas, segundo Jana e Pri, ainda faltam incentivos estruturais: leis de fomento insuficientes, dificuldades de captação e pouca verba para trajetórias individuais de artistas.

Mesmo assim, a cena floresce e atrai criativos de todo o país. Belo Horizonte não só reinventou sua própria autoestima, como se tornou referência nacional em arte pública.

O futuro do CURA

Entre os próximos passos, estão:

  • finalizar o Mirante do CURA Amazônia, em Manaus;

  • revitalizar empenas de BH que completam quase dez anos;

  • levar o CURA Litoral para capitais brasileiras;

  • circular o CURA Amazônia por outras cidades da região.

Mas, como dizem as fundadoras, o movimento também segue o seu próprio fluxo: “Às vezes é preciso deixar o mistério trabalhar”.

Para além do eixo

Em uma cultura muitas vezes centralizada entre São Paulo e Rio, o CURA é um manifesto vivo de que a potência está nos territórios, e não nos centros hegemônicos.

“Chegou a hora de parar de correr atrás. O Brasil precisa fortalecer a sua própria autoestima. O CURA acontece aqui — e quem quiser viver isso, vai ter que vir também.”

https://www.cura.art/sobre-nós

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