DESTAQUEModa

Nike Shox Z, Júlia Costa e a influência das mulheres do rap no streetwear BR

Se você curte streetwear e acompanhou as notícias da semana, viu que a Nike lançou o modelo Nike Shox Z — uma releitura minimalista de um ícone dos anos 2000 — e escolheu a rapper Júlia Costa e sua marca, Ajuliacosta Shop, como embaixadoras do tênis no Brasil. A campanha, intitulada “Não foi feito para agradar”, soa quase como uma referência ao single “Não Foi do Nada”, da própria artista.

“O Shox era sonho de consumo nacional pelas quebradas de todos os cantos. Hoje, sou a primeira pessoa no Brasil a colocar a nova versão dele nos pés — e não é pra agradar ninguém. Uma mulher preta do rap nacional escolhida pela Nike pra fazer barulho, não pra pedir permissão.” — Júlia Costa

A fala de Júlia carrega um simbolismo que vai muito além de uma campanha. Representa a força das mulheres do rap brasileiro que vêm, há anos, moldando estética, comportamento e discurso — dentro e fora dos palcos.

O Lelê, dono do Bazar dos Menino, brechó referência em Belo Horizonte que garimpa relíquias da moda como Cyclone, Planet Girls e Juicy Couture, resumiu com perfeição o impacto desse momento:

“O Shox sempre foi da quebrada. Desde o NZ até o Deliver, é um tênis que marcou as periferias. Então ver uma mulher preta do rap, que sempre bateu no peito pela favela, sendo escolhida pra representar essa silhueta é muito importante. Isso mostra pra novas gerações que uma mulher negra pode, sim, estampar uma colaboração com a maior marca esportiva do mundo. A favela sempre ditou tendência — até quando diziam que não era sobre ela.”

E é exatamente isso que torna o agora tão simbólico. O streetwear, que nasceu como expressão de resistência, ganha novas vozes, rostos e narrativas.

Não é novidade que o rap influencia diretamente a moda — afinal, o streetwear tem suas raízes fincadas no hip-hop. O estilo que um dia foi marginalizado e hoje domina passarelas e vitrines de luxo sempre foi sobre identidade, pertencimento e expressão.

Mas, apesar de o streetwear ainda ser um território frequentemente associado aos homens, as mulheres sempre estiveram lá — consumindo, produzindo e reinterpretando.

Nos anos 2010, Karol Conká já fazia da moda uma extensão do seu discurso: cores fortes, visuais arrojados e uma estética que misturava vanguarda e empoderamento. Ela entendeu cedo que vestir-se é manifestar o que se acredita.

Mais tarde, vieram Tasha & Tracie — duas forças que transformaram referências de blog, brechó e periferia em potência criativa global. Desde os tempos do Expensive $hit até as colaborações com Adidas, Kenner e Renner, as gêmeas consolidaram um legado que atravessa música, moda e atitude.

O fato é que, embora nem sempre recebam o protagonismo que merecem, as mulheres são — e sempre foram — o pulso da moda e do streetwear brasileiro.
Agora, assumem também o comando criativo: donas de marcas, vozes e olhares que ditam tendência, mas também questionam o sistema.

Elas vestem o que ouvem.
E ouvem o que vestem.

Porque o streetwear sempre foi sobre isso: identidade, verdade e pertencimento.
E, neste momento, o rosto dessa cultura tem nome, voz e batida feminina.

por MANDS LIMA

You may also like

Leave a reply

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *