Na última semana, aconteceu a 60ª edição do São Paulo Fashion Week (SPFW N60) e, entre tendências, novidades e inspirações, o que mais me chamou atenção foi a presença constante do artesanato brasileiro sendo exaltado por marcas que já admirava — e que agora retomam o trabalho manual como ponto central de suas criações.

A começar pela Dendezeiro, que, para mim, é sempre protagonista. A marca trouxe como referência a obsoleta Lei da Vadiagem, e suas peças são uma verdadeira subversão à ideia de censura imposta por quem ainda acredita nessa suposta contravenção. Essa coleção encerra a trilogia Brasiliano, criada pelos fundadores e diretores criativos Hisan Silva e Pedro Batalha, e tem como protagonistas elementos que remetem à clandestinidade ainda presente: micro-shorts, muito funk e bolsas de miçangas — um trabalho manual emblemático do nosso artesanato. Mais uma vez, a Dendezeiro exalta com força e beleza a cultura do país.

Seguindo para Ronaldo Fraga, que prestou uma homenagem emocionante a Milton Nascimento, reafirmando seu compromisso com a arte manual. O estilista levou à passarela peças de renda e crochê, confeccionadas por artesãs de Minas Gerais, Goiás e Santa Catarina. Também apresentou bordados em linha e ponto-cruz — detalhes que reforçam o caráter poético e artesanal de seu trabalho, uma das assinaturas mais bonitas da moda brasileira contemporânea.

Por fim, não dá pra deixar de falar sobre as criações da designer Sofia Penido, que apresentou as peças da marca Aloe no desfile da LED. Com o tema Carnaval, as peças trouxeram o brilho como elemento central: tops, sobreposições, cabeças e acessórios feitos à mão por uma marca que vem crescendo de forma sólida, com criações cada vez mais originais e complexas. Sou fã declarada da Aloe e da Sofia — ver o trabalho dela ganhando espaço é motivo de orgulho.
A explosão do artesanato nas passarelas é, para mim, uma forma de voltarmos os olhos para o Brasil — para suas mãos criativas, sua arte e sua capacidade de transformar o comum em extraordinário. É um contraponto potente à ascensão das fast fashions e dos processos automatizados que têm tomado conta não só da moda, mas do nosso tempo.
por MANDS





