Retrato Falado

Retrato Falado — Karen Brandoles

“Transformar vidas é mais urgente do que seguir tendências.”

Karen Brandoles sempre soube que a moda seria mais do que roupa. Crescida em São Paulo, entre massinhas, bonecas e uma inquietação criativa, ela carregava desde cedo o desejo de ajudar pessoas. Primeiro, acreditou que a medicina seria o caminho. Mas a vida tinha outros planos: foi no cruzamento entre moda, comunidade e justiça social que ela encontrou sua verdadeira vocação.

Após experiências em nutrição, comércio exterior e até um intercâmbio na Austrália, Karen voltou decidida: faria moda. Atuou como stylist, figurinista, em catálogos e grandes lojas, mas percebeu que o mercado tradicional lhe roubava algo essencial: o tempo com a família, a essência comunitária e a integridade pessoal. A virada veio quando pisou pela primeira vez em uma penitenciária feminina, em 2012.

O choque de ver mulheres uniformizadas, privadas do direito básico de escolher o que vestir, foi o estalo. “Moda é liberdade, é política, é identidade. E ali eu não vi nada disso”, relembra. Dessa inquietação nasceu o embrião do que se tornaria a Passarela Alternativa — um projeto que mistura moda, capacitação e justiça restaurativa, oferecendo às mulheres presas e egressas a chance de ressignificar suas trajetórias.

O primeiro desfile, realizado dentro do sistema prisional, foi simbólico: cores, tecidos doados, costura coletiva. Para as 17 mulheres que desfilaram, era mais do que roupa — era a possibilidade de se verem como sujeitos de escolha e expressão. Para Karen, foi um divisor de águas.

Anos depois, já como mãe solo e após atravessar depressão e crises pessoais, ela transformou dor em ação. “A primeira pessoa que passou pela passarela alternativa fui eu”, resume. Hoje, o Instituto Passarela Alternativa impacta mulheres em regimes fechado, semiaberto e pós-cárcere, unindo capacitação em moda, geração de renda e apoio psicológico.

O trabalho vai além do design: absorventes reutilizáveis, projetos de upcycling e parcerias com universidades e marcas ampliam o impacto. Cada peça confeccionada carrega não só tecido, mas histórias — de resgate, dignidade e potência.

“Impactar uma mulher é impactar uma sociedade inteira”, acredita Karen. Afinal, quando uma mulher transforma sua vida, transforma também sua casa, sua comunidade e o futuro de quem vem depois.

Hoje, entre desfiles que mostram mais do que “lookinhos” e costuras que viram metáforas de reconstrução, Karen prova que moda pode ser, sim, ferramenta de justiça. O que seria descartado — tecido ou gente — pode, com afeto e criatividade, renascer em luxo.

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