DESTAQUERetrato Falado

Retrato Falado — Kdu dos Anjos

“Eu boto fé que eu criança ia querer ser meu aluno hoje em dia”

Kdu dos Anjos carrega na fala a potência de quem transforma indignação em movimento. Nascido e criado no Aglomerado da Serra, em Belo Horizonte, ele encontrou no rap e nos projetos sociais a base para sonhar — e realizar. “Eu tinha uma mentalidade assim: a gente vive num planeta que literalmente a comida sai da terra, a padaria tá ali, e eu não posso comer porque eu não tenho dinheiro? Como assim, né? Por quê?”, relembra

Foto: Diego Ruahn

Antes do reconhecimento como gestor cultural e fundador do Centro Cultural Lá da Favelinha, Kdu foi criança fascinada por videogames, adolescente escrevendo livros em cadernos que circulavam entre as famílias, e MC nas batalhas de rima que ocupavam os viadutos da cidade. “Eu era o MC ruim, mas eu subia no palco, botava a cara. Sempre fui doido pra criar coisa nova”, conta.

Essa inquietude virou combustível para um dos maiores movimentos culturais de periferia do Brasil. Do duelo de MCs ao Favelinha Fashion Week, passando por saraus, batalhas de passinho, desfiles no beco e cooperativa de moda sustentável, tudo nasce da mesma lógica: abrir portas e nunca fechá-las. “Uma das primeiras atitudes que fez a Favelinha ser gigante foi eu abrir a porta e jogar a chave fora. Sempre aberto”, diz.

Hoje, aos 35 anos, Kdu segue expandindo. Entre projetos de arquitetura premiados, desfiles, exposições e planos para transformar a Torre de Bebel em galeria de arte, ele não perde o desejo de aprender e reinventar-se. “Comecei a faculdade agora, depois de tudo isso. Eu boto fé que eu criança ia querer ser meu aluno hoje em dia”, afirma, com um sorriso de quem sabe: a revolução começa no imaginário.

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